fragmentos vermelhos
(caixa 12)
materiais diversos sobre papelão e madeira, 14 x 19.6 x 10 cm, 1998


« Tudo estava dito,

oferecido na sua inteireza.

Meticuloso e paciente,

o caçador de imagens colhe

os rastros do que já foi
,

desenterra as raízes de algo por vir.

Seus passos acompanham a linha oceana,

sobem e descem vales e serras.

Ele rodeia o círculo das ilhas

e da roda mágica cromática.

Segredos outrora inexpressivos

tornam-se indícios inconfundíveis.

Ele vai.

Insensatez ou insolência, o garimpeiro

percorre fronteiras frágeis entre dia e noite,

dizível e indizível, algo e quase nada.

É a colheita de um não sei quê.

Apanha cores, a memória das cores,

polidas, apagadas, corroídas pelo vento

e pelo mar, pelo sol e pela terra.

Restos de madeira, plástico,

borracha, ferro, cimento.

Tampa esmagada e

chinela despedaçada.

E volta.

Brincante.

Junta vestígios e nascentes


para compor o acaso.

Desenhas novos mapas, bóias e faróis.

O mundo não pode afundar de vez
.

Dos fragmentos: ressurgências,

preciosidades enigmáticas, relíquias sem altar.

O som encaixado, a palavra envidraçada,

o sentido desagregado, sombras falsas


e sombras veras, aparições fugazes.

Cores lavadas para uma gênese

vermelho, amarela, azul,

fonte de todas as virtualidades
.

Ele desvenda o encoberto
.

Olhamos. Eis o paraíso. »


Martine Kunz
(catálogo da exposição
"Philippe Enrico
/ fragmentos de um paraíso",
Centro Cultural do Abolição,
Fortaleza, novembro de 1996)

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